Gestores e analistas internacionais passaram a observar com mais cautela as apostas concentradas em mercados emergentes depois da forte queda dos ativos brasileiros após a eleição presidencial. Para eles, posições montadas na mesma direção podem ser desfeitas em velocidade acelerada, como ficou claro na segunda-feira, quando o real e a bolsa brasileira despencaram.
Queda recorde no Brasil
Na segunda-feira, o real teve seu pior dia desde 1999. A bolsa brasileira interrompeu os negócios poucos minutos depois da abertura e fechou em queda de quase 14%, com algumas ações recuando mais de 50%. O movimento seguiu a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, considerada inesperada, que desarranjou mercados montados para uma vitória de Flávio Bolsonaro.
Antes do resultado, o real era a segunda moeda emergente de melhor desempenho no ano, atrás apenas do peso colombiano. Juros elevados no Brasil atraíam investidores estrangeiros em busca de rendimento, e preços mais firmes das commodities davam suporte adicional.
Julio Callegari, diretor de investimentos para renda fixa asiática da JPMorgan Asset Management, afirmou, em entrevista em Cingapura, que o episódio mostra o tamanho do dano observado após a reeleição. Segundo ele, o mercado ainda não está totalmente limpo.
Outras apostas em observação
Brendan McKenna, estrategista da Societe Generale em Nova York, apontou o crédito de mercados emergentes como uma das operações mais concentradas, por causa de spreads muito estreitos. O índice de títulos soberanos emergentes da Bloomberg registrava prêmio de 210 pontos-base sobre os Treasuries comparáveis, mais de 100 pontos abaixo da média de cinco anos, de 315 pontos-base.
A Hungria também entrou no radar. Posições estrangeiras em títulos e letras do Tesouro húngaros atingiram recorde de 11,1 trilhões de forints, ou cerca de US$ 34 bilhões, no mês passado. Segundo o Citigroup, investidores compradores ficaram concentrados em juros e no forint.
No caso do rand sul-africano, fundos alavancados e gestores de ativos mantinham cerca de US$ 688 milhões em posições compradas líquidas, perto do maior nível desde o fim de 2024, segundo dados da Commodity Futures Trading Commission compilados pela Bloomberg. Já a Brandywine Global destacou a concentração em títulos de curto prazo em moeda local de Egito, Turquia, Nigéria e Cazaquistão.
"Uma postura mais agressiva do Federal Reserve ou uma escalada significativa dos conflitos geopolíticos poderia pressionar posições em mercados emergentes que têm sido favoritas dos investidores."
A declaração é de Brendan McKenna, da Societe Generale, que citou o cenário como fator de risco para essas posições.
Inteligência artificial sob pressão
Entre as ações asiáticas, a aposta ligada à inteligência artificial começou a mostrar fragilidade. Resultados decepcionantes de algumas grandes empresas americanas de tecnologia pesaram sobre o setor, e cresceram as dúvidas sobre se os gastos bilionários com IA se converterão em lucros sustentáveis. Um indicador da Bloomberg para ações de semicondutores da região acumula queda de quase 25% desde a máxima de junho.
William Yuen, diretor de investimentos da Invesco, disse que os gastos das grandes empresas de nuvem com IA seguem como indicador importante a ser acompanhado. Gary Tan, gestor de portfólio da Allspring Global, citou a possibilidade de um processo de IPO da Anthropic sem brilho prejudicar o sentimento do mercado.
Apesar das preocupações, analistas ouvidos pela fonte lembram que muitas das operações populares do ano seguem apoiadas por rendimentos atraentes e bons resultados corporativos.